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25.04 - 16h10min

A música no Rádio falado

Há espaço para a música no rádio, mas ela tem de estar atrelada a um conteúdo

Antes que os novos tempos começassem a substituir divisão oitentista entre AM e FM por rádio falado e musical, estabelecera-se que, naquele, a música, conquanto importante para prender atenção do ouvinte, exercia papel acessório, uma vez que o protagonismo pertencia às vozes que entretinham, informavam, emocionavam, transmitiam futebol e outros esportes. Ao passo que, neste, o fenômeno era inverso: as vozes, que também entretinham e informavam, faziam papel de escada para o verdadeiro protagonista: a canção e seus intérpretes. Mas, a reboque das novas tecnologias que permitem às emissoras serem ouvidas por aplicativos e por sites – ao que se junta o processo de migração do AM para o FM, em fase inicial -, um fenômeno põe em xeque, ao menos entre teóricos e professores de comunicação, o futuro do rádio musical: a concorrência de outras mídias que libertam o usuário da escolha discricionária do programador musical – ou dos pedidos de ouvintes – quando querem ouvir as músicas de sua predileção. A solução profilática seria sua “aemização” – a adoção mais intensa do estilo falado, com adaptação ao perfil de ouvinte de cada emissora. Algumas emissoras, como a Jovem Pan FM, de São Paulo, e a FM ODIA, do Rio de Janeiro, já fazem isso – mas em algumas faixas de sua programação, sem que se perca a identidade musical.

 
No terreno pantanoso sobre o qual se pretende edificar o futuro a partir do presente, dados empíricos mostram que o rádio musical de perfil tradicional – a esmagadora maioria, no receptor, ocupando banda de FM – continua com grande índice de audiência, numa demonstração de que as diversas mídias, embora concorrentes, podem conviver sem canabalização. A nova metodologia do Kantar IBOPE Media para auferir audiência de rádio, que desde janeiro passou a incluir questionário online enviado por e-mail a 20% do universo pesquisado, vem apontando aumento dos índices das principais emissoras dos grandes centros – o que incui, também, as rádios AMs que passaram a transmitir, simultaneamente, em FM.
 
O rádio falado finca seu público-alvo em camadas populares de faixa etária mais elevada – excetuando as emissoras jornalísticas, de audiência segmentada nas classes A e B. São ouvintes que, quando sintonizam a emissora, não querem somente ouvir música – mas, sobretudo, procuram um conteúdo que lhes seja útil para os momentos em que pretendem fazer do rádio seu companheiro. Há quase duas décadas, um fenômeno radiofônico mostra como a música pode adaptar-se a esse estilo de emissora: o programa “Planeta Rei”, criado e apresentado por Beto Brito. Por muito tempo ocupando as tardes de uma rádio pequena que costuma alugar horários, o programa alcançou índices de audiência capazes de ameaçar as duas emissoras faladas que há cinquenta anos disputam a hegemonia no Rio de Janeiro – a ponto de Beto Brito ter sido contratado por uma delas para outra faixa de horário. Trata-se de um programa simples e bem-feito, com músicas antigas pedidas pelos ouvintes. Difere-se, porém, dos tradicionais flashbacks noturnos das emissoras musicais, formatado geralmente por sucessos brasileiros e angloamericanos das décadas de 70 a 90, por dois motivos: maior abrangência dos gêneros musicais – canções brasileiras das décadas de 40 a 60, canções francesas e  italiana; e  o conceito de “saudade” não envolve só música, mas lembranças de datas, fatos marcantes, comerciais antigos, artista falecidos. Tudo isso embalado pela voz suave e intimista do comunicador, que cativa pela proximidade que estabelece com o ouvinte e não se abtém de comentar e debater os principais acontecimentos do Brasil e do mundo.
 
Há espaço para a música no rádio falado, mas ela tem de estar atrelada a um conteúdo e ao perfil do programa em que está sendo executada. Se não, funciona apenas como tapa-buraco, como um recurso para esconder produção deficiente.
 
Por Bruno Filippo – Jornalista e Sociólogo
Abril/2016
 
 
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